Prefeita muda discurso e admite reeleição em Chapada dos Guimarães

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Douglas Trielli/Foto: Victor Ostetti/MidiaNews

Prestes a entrar no último ano de sua gestão, a prefeita de Chapada dos Guimarães, Thelma de Oliveira (PSDB), disse que já conseguiu fazer uma série de mudanças estruturais no Município. Entre as mais importantes, disse ter acabado com o “clientelismo” e “familiocracia”, que, para ela, atrasavam a cidade.

Em conversa com o MidiaNews, Thelma admitiu ir à reeleição e disse que Chapada não pode “retroceder”. Mas afirmou que a sigla tem outros nomes que podem dar continuidade a seu mandato.

“Se tiver dentro do partido alguém que possa dar continuidade, não seria problema. A grande luta, hoje, é que a Prefeitura não retroceda em todos os avanços que tivemos até agora. Acabamos com clientelismo, com a coisa patriarcal, a familiocracia. Parar com isso, porque só assim vamos desenvolver”, disse.

Ainda na entrevista, a prefeita negou que Chapada continue com problemas de abastecimento de água e disse estar adotando uma série de medidas para superar a crise financeira do Executivo, por conta da queda dos repasses dos governos Estadual e Federal.

Leia a íntegra da entrevista:

MidiaNews – No final de novembro, a senhora publicou um decreto “fechando” a Prefeitura de Chapada dos Guimarães até janeiro. Afinal de contas, o que está havendo com o Município?

Thelma de Oliveira – Esse decreto não fechava as portas da Prefeitura, como foi amplamente divulgado. O decreto deixava todos os serviços essenciais à população funcionando normalmente. Como, por exemplo, Saúde, Educação, a Secretaria de Obras, a parte de tributos. Tudo aquilo que atende a população iria continuar funcionando. Foi a forma que encontramos para economizar no final de ano. Seria uma economia de mais de R$ 600 mil, que para uma Prefeitura pequena é um volume bastante grande.

Mas foi mal compreendido. A situação da Prefeitura de Chapada não difere da maioria das mais de 5,5 mil Prefeituras do País, que passam por dificuldades financeiras, orçamentárias. Muito em virtude dos repasses constitucionais, seja do Governo do Estado ou Federal, que caíram muito. Você tem sempre aquelas obrigações, inclusive com um tema que está sendo bastante discutido que é a Previdência. Foi isso o que aconteceu. A maioria das prefeituras da Baixada Cuiabana está na mesma situação.

 

 

MidiaNews – Se o principal fator da crise são os repasses, então a arrecadação própria está indo bem?

Thelma de Oliveira – Nós conseguimos aumentar a nossa arrecadação. Mas tivemos que cobrir esse vácuo deixado pela queda dos repasses. Teve época que esperávamos R$ 400 mil e recebemos R$ 70 mil. Esse vácuo foi coberto com a arrecadação própria, que era para estradas, pontes…

MidiaNews – De quanto foi a queda nos repasses?

Thelma de Oliveira – Em alguns casos, de quase 50%. Mas quero dizer que a AMM [Associação Mato-Grossense dos Municípios] tem trabalhado bastante no sentido de cobrar, mobilizar, mas não tem sido fácil.

MidiaNews – A Câmara acabou derrubando o seu decreto. E na última semana a senhora fez uma série de exonerações.

Thelma de Oliveira – Nós fizemos outro decreto, porque com a queda de um dos decretos que tínhamos publicado ficou valendo somente um, mas ele não foi suficiente para conseguirmos fazer as economias. Então, fizemos um novo decreto. Cada secretaria teria que demitir 40% dos contratados. Também só estamos trabalhando meio período. Nos pagamentos, somente aquilo que for essencial. Com isso, vamos conseguir fechar o final de ano, graças a Deus.

Nós conseguimos aumentar a nossa arrecadação. Mas tivemos que cobrir esse vácuo deixado pela queda dos repasses

MidiaNews – Então, com esse conjunto de medidas, Chapada não vai virar o ano no vermelho?

Thelma de Oliveira – Vamos ficar com algumas dívidas, mas vamos cumprir com aquilo que consideramos essencial, que é o pagamento dos servidores, o salário de dezembro e o 13º. Isso está garantido. Mas vamos ficar, ainda, com algumas dívidas de fornecedores, mas posteriormente iremos pagar. Nossa receita chega a R$ 3,5 milhões ao mês, mas é variável. Tem época que chega nesse valor, às vezes é maior. Mas acaba que a folha ainda está um pouco alta e estamos reduzindo agora no final do ano.

MidiaNews – Sempre saem notícias sobre crise em Chapada, dificuldade de pagamentos, problemas de gestão. Quando assumiu, em 2017, a senhora esperava tanta dificuldade?

Thelma de Oliveira – Não! E confesso que fui surpreendida pelas dificuldades. Não esperávamos que íamos encontrar tanta dificuldade dentro de uma Prefeitura tão pequena. É uma Prefeitura que estava desorganizada administrativa e financeiramente. Não tínhamos uma base de dados do nosso imobiliário. Era totalmente defasado. Contratamos uma empresa que está fazendo o georreferenciamento. Não está totalmente pronto, mas hoje já temos essa base cadastral muito mais fidedigna com relação ao Município. É verdade que falta ainda muita coisa. Falta a gente terminar algumas coisas. Por exemplo: o Lago de Manso é de Chapada, mas as pessoas pensam que é de Cuiabá. E como ficou isolado, nunca se questionou os empreendimentos e tudo o que acontecia lá. Então, estavam tranquilos. As construções acontecendo sem tirar alvará, sem cobrar IPTU. Agora, estamos organizando. E depois, iremos para zona rural.

 

 

MidiaNews – Chapada é uma cidade turística, portanto essencialmente de serviços. Como está a arrecadação do ISS (Imposto sobre Serviços)?

Thelma de Oliveira – Ainda não chegamos ao patamar que desejamos. Até porque os gestores anteriores não davam muita importância ao setor de fiscalização. Então, era um setor que não era totalmente informatizado, era desorganizado. Não se fazia cobrança. Não vou especificar por que não fazia, mas não fazia. E isso prejudicou enormemente o Município. Então, no momento em que entramos e estamos organizando, por exemplo, os hotéis, as pousadas, os restaurantes e tudo o que gera renda, tem causando certo incômodo, mas as pessoas estão entendendo que isso é necessário. Foi feito um trabalho de fortalecimento do setor de fiscalização, de capacitação dos nossos fiscais. Estamos trabalhando bastante, mas não estamos com isso totalmente organizado para que possa gerar uma excelente arrecadação ao Município.

Ainda não chegamos ao patamar que desejamos. Até porque os gestores anteriores não davam muito importância ao setor de fiscalização

MidiaNews – Pelo que diz, a senhora reconhece as dificuldades de se administrar Chapada. Em algum momento pensou em desistir?

Thelma de Oliveira – Não. Em nenhum momento. E a gente tem passado por momentos bastante difíceis. A questão da água, da Saúde, mas não é nada diferente do que os outros municípios passam. E o fato de eu ter saído de Cuiabá, ter escolhido Chapada, que era a minha – e do Dante [de Oliveira] – segunda cidade… Essa ligação era muito forte. Eu defendi que precisávamos mudar a história dessa cidade. E como mudar? Fazendo com que cada centavo que entre seja devolvido à população. Passei por momentos complicados, mas jamais disse que “nunca mais volto aqui”. Não. Vamos até o final.

Eu sempre digo para minha equipe. Sempre elogio minha equipe, que está lá, está trabalhando. Especialmente agora final do ano, em que ocorrem diversos eventos. Se eu não tiver uma equipe comprometida, não vamos conseguir fazer com que as coisas aconteçam. E a cidade sai de 5 mil habitantes, que circulam lá durante a semana, e em eventos maiores chega a 30 mil. Final de semana, mesmo, tem sido lotado. Quando as pessoas não têm possibilidade de ir para outras cidades, vão para Chapada, porque ali tem uma série de atrativos em que são fáceis de se chegar.

 

MidiaNews – Há uma tradição em Chapada segundo a qual todo gestor que assume tem que contemplar três ou quatro famílias da cidade. Caso contrário, não consegue governar. Isso procede? A senhora contemplou essas famílias?

Thelma de Oliveira – Não. E não negociei nada antes da eleição. A cultura era de sentar com os partidos e cada um ficava com uma secretaria. Eu desde o início disse que estavam pensando de modo equivocado. Não tínhamos ganhado a eleição ainda. E já ia distribuir secretaria? As pastas não devem ser entregues aos partidos. Temos que ter as pessoas ligadas às áreas, que tenham serviços prestados. Naturalmente, por ser uma cidade pequena, você contempla uma ou outra família, mas são escolhidos não por ser da família, mas por ser técnico.

Criou-se muito essa situação, mas como não sou ligada a nenhuma família, porque não tenho nenhum parentesco lá, foi bom, porque quebrou essa hegemonia de achar que só aquelas famílias podem exercer o poder. Mas na verdade há uma gama de pessoas que moram lá e que querem contribuir com o desenvolvimento, mas, às vezes, não têm oportunidade.

 

 

MidiaNews – Sente algum tipo de boicote em razão disso?

Thelma de Oliveira – Não diria boicote, mas diria oposição. Mas é natural que todas as prefeituras tenham vereadores que pertencem à outra linha de pensamento, de outros partidos. Algumas famílias que ainda entendem que o poder deve ser exercido de maneira diferente. Eu prezo muito pela questão técnica das pessoas, pela dedicação, pela meritocracia mesmo. Mas teríamos avançado muito mais se não tivéssemos alguns problemas. Hoje, não tenho certidões [negativa de débito]. Não consegui ainda. Teríamos avançado muito mais na cidade se os outros gestores tivessem feito o dever de casa.

MidiaNews – Recentemente, o conselheiro interino do Tribunal de Contas do Estado (TCE), João Batista Camargo, chegou a sugerir uma intervenção em Chapada. Isso não demonstra falta de gestão?

Thelma de Oliveira – Não. O que houve foi um julgamento político. Nós apresentamos a nossa prestação de contas. Não é que o conselheiro não quis fazer a avaliação, mas não chegou a tempo, nas mãos dele, para fazer a avaliação das nossas contas. E com isso fez um julgamento de que eu não teria entregue no prazo e depois comprovou-se que tínhamos entregue, dentro do prazo, toda a nossa defesa, mas que não tinha sido juntado ao processo de prestação de contas. Depois os conselheiros analisaram que nós estávamos corretos. Mas o que aconteceu foi um julgamento político dentro da Câmara Municipal, que acabou nos prejudicando e nos levando a essa situação e que já foi resolvido.

 

 

MidiaNews – Apesar das dificuldades que sua gestão tem enfrentado, a senhora pretende ir à reeleição?

Thelma de Oliveira – Essa é a pergunta mais difícil. Toda a minha vida sempre decidi as questões no coletivo. Nunca disse que quero ser e vou ser. Quando fui ser candidata lá, o diretório do PSDB me chamou, porque havia mais dois candidatos. Eu lá defendi as propostas que tinha para a cidade. Então, vamos decidir dentro do partido. Se me perguntar quais são as expectativas para o ano que vem, vou dizer que temos uma série de ações que precisamos e quero entregar para a população. Coisas que venho trabalhando, como a questão da feira dos pequenos produtores rurais… A piscina pública é outra questão. São coisas que preciso entregar à população.

Depois, os diretórios estadual e municipal vão fazer uma avaliação para decidirmos. Não pelo nome da Thelma ou de outros pré-candidatos, seja do nosso partido ou não, mas pela continuidade do projeto. É uma coisa que começou, que uma gestão apenas não dá conta, e que precisa dar continuidade.

MidiaNews – Então, senhora tem vontade de continuar o trabalho?

Thelma de Oliveira – É! Mas se tiver dentro do partido alguém que também possa dar continuidade, não seria problema. A grande luta, hoje, é que a Prefeitura não retroceda a todos os avanços que tivemos até agora. Acabamos com clientelismo, com a coisa patriarcal, familiocracia. Parar com isso, porque só assim vamos desenvolver. Pensar em um planejamento, na coisa séria. Na minha gestão até agora já tivemos sete novos empreendimentos de condomínios abertos. Alguns já estão em fase de conclusão. A cidade está vivendo esse momento e não podemos retroceder em relação a isso.

 

 

MidiaNews – Recentemente, a Câmara abriu uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) em razão dos problemas no sistema de captação de água. Então, quer dizer que o problema da escassez de água não foi resolvido?

Thelma de Oliveira – Claro que resolveu! O problema não é esse. O que aconteceu foi que apresentei a emenda como deputada federal, no valor de R$ 10 milhões. Isso começou na gestão do ex-governador Silval Barbosa, mas parou e não foi dada continuidade. Quando assumimos em 2017, uma das primeiras coisas que fizemos foi dar continuidade, para resolver essa situação. Acontece que esse recurso não vem para a Prefeitura. Foi, via Funasa (Fundação Nacional de Saúde), para a Secretaria Estadual de Cidades, na época em que o deputado estadual Wilson Santos era secretário. Então, foram eles que executaram, eles que licitaram. Nós apenas fazemos a gestão da questão da água.

Ocorre que as bombas foram construídas especificamente para aquela captação. Se tirar de lá, não serve em lugar nenhum, porque foi construída especificamente para aquele lugar. Então, elas estragaram, mas já arrumamos. Tivemos alguns problemas, como no Carnaval. Mas da Baixada Cuiabana, o Município com menos reclamação por conta da falta de água é Chapada, porque estamos sempre atentos a isso. Resolvemos isso. Já tivemos outros eventos este ano e não houve problema. Mas existem questões pontuais, como vazamentos, porque nossa rede é muito antiga. Mas dizer que está faltando água, como tenho visto em outros municípios, não é verdade.

Acabamos com clientelismo, com a coisa patriarcal, familiocracia. Parar com isso, porque só assim vamos desenvolver

E estamos fazendo um trabalho grande de educação ambiental. Chapada tem uma das melhores águas do Brasil. É uma água límpida, maravilhosa. Mas há um desperdício. Por isso, estamos fazendo campanha em escolas, com o próprio consumidor, para que possamos aprender a economizar essa água, que é o maior bem que existe no mundo.

MidiaNews – Neste mês, a Justiça bloqueou os seus bens e da empresa Concretar Construtora Ltda até o montante de R$ 102,9 mil. A empresa é responsável pelo fornecimento de combustível, lubrificantes e manutenção dos equipamentos nas balsas e rebocadores da travessia nos rios Quilombo e Água Branca.

 

Thelma de Oliveira – Sim, mas esse é outro equívoco. O gestor dessa questão da balsa é de quem administra o fundo, que no caso é o Fethab (Fundo Estadual de Transporte e Habitação). O gestor do Fethab é o secretário de Obras. E em uma entrevista o próprio secretário disse que era ele que fazia a gestão e o pagamento das balsas. Infelizmente, o juiz entendeu que deveria me penalizar. Mas a gente já recorreu, explicando e mostrando toda a documentação. Não faço parte nem do conselho do Fethab. Infelizmente, fui penalizada, mas estamos recorrendo.

MidiaNews – Em Chapada existe uma crítica recorrente de que a senhora não participa do dia a dia da cidade. Reclamam que a senhora nunca está na cidade.

Thelma de Oliveira – Claro que estou. Faço caminhada todo dia na ciclofaixa, participo dos eventos. Onde sou convidada, na maioria das vezes, estou sempre presente. Talvez eu não seja muito de dentro das casas. Aí, sou um pouco mais caseira. Mas participo de todos os eventos que temos lá. A não ser quando temos compromissos fora. Estou sempre visitando zona rural. Nosso Município é muito grande e não dá para dar conta de tudo.

São muitos eventos. E já estamos preparando os próximos. Embora não tenha montado o Natal e ano novo ainda, vai correr. Na semana que vem começamos esse processo. Sempre há dúvida se vai ter ou não, mas vai ter. Demoramos um pouco para fechar os parceiros. Mas já fechamos esses parceiros. E também o Carnaval.  O carnaval de Chapada é característico. Sempre questionam as razões de não investir esses valores em Saúde e Educação, mas é parceria. Lá no Carnaval, temos parceria com os blocos, com os empresários que investem no carnaval e a cidade entra com a infraestrutura e segurança. Então, estamos na fase de preparação para todos esses eventos. Quem quiser subir, pode subir. Não vai faltar água, não vai faltar evento e nem diversão.

 

 

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