Caminhando em Sète

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Depois de conhecer a Riviera Francesa, tive uma surpresa agradável ao chegar a cidade de Sète, no sul da França: uma pequena joia no Mediterrâneo, conhecida como a Veneza Francesa por causa dos seus canais.

O lugar é famoso, graças ao Rei Luís XIV (apelidado de “o Grande” e “Rei do Sol”) que, no período de 1666-1681, construiu um majestoso canal que liga o Oceano Atlântico ao Mar Mediterrâneo. O canal começa em Toulouse e termina na Lagoa de Tchau, em Sète. É considerado uma das maiores criações de genialidade civil-hidráulico da Era Moderna. A obra-prima soube aliar a proeza técnica a uma preocupação de estética em arquitetura e paisagismo.

A via aquática possui 240 km, atravessando três regiões: Languedoc-Roussilon, Midi-Pyrenées e Aquitaine. O canal tem 63 comportas, 126 pontes, 55 aquedutos, 7 pontes-canal, 6 barragens e 1 túnel. É um dos mais antigos canais da Europa ainda em funcionamento.

Caminhar em Sète é muito agradável. O ambiente é mais descontraído do que outros locais no Mediterrâneo. Bom para a reflexão e o exercício da mente. A simplicidade das pessoas é percebida em todo lugar, nas lojas de souvenir, no Mercado Les Halles, nos pequenos armazéns vendendo lâmpadas e hélices de navios ou nos bares e restaurantes aconchegantes na beira dos canais. São pescadores, marinheiros, ostricultores, turistas, que se cruzam com os moradores da região de Languedoc para se confraternizar com todo o respeito a cultura local.

O esporte náutico é muito apreciado em Séte: a vela, a motor, a remo ou caiaque. Mas, quem não quiser praticar, pode alugar uma chalana para passear no belíssimo Canal de Midi. Existe na cidade uma grande festa náutica anual, no mês de agosto. É uma tradição que data da Idade Média e perpetua com torneios aquáticos. Os competidores, vestidos de branco e equipados com lança e escudo, se enfrentam nos canais. O apogeu do torneio coincide com a festa de Saint Louis, padroeiro da cidade. Com mais de 70 shows, a cidade tem uma atmosfera delirante.

Os moradores de Sète, também, cultuam o seu passado. Filhos ilustres são sempre lembrados e reverenciados como o literário Paul Valéry, filósofo, escritor e poeta da escola simbolista cujos escritos incluem interesses em matemática, filosofia e música. O autor-compositor-intérprete Georges Brassens vendeu cerca de 20 milhões de álbuns entre 1953 e 1981, o que constitui um recorde para quem começou a publicar música nos anos 50 e que já tinha um estilo claramente (e voluntariamente) fora de moda nos anos 70. Outra celebridade, Jean Vilar, foi um ator e diretor de Séte dos mais influentes no teatro francês contemporâneo. Fundou o Théatre National Populaire (1951). Aliás, existe na cidade o magnífico teatro Molière, construído em 1904, atualmente inscrito como monumento histórico e reconhecido como “a sala italiana mais bonita da França”, acolhe durante todo a ano mais de 40 espetáculos de teatro, dança, canção, música clássica ou atual, arte lírica, para público jovem e circo contemporâneo.

Aprendi muito com essa viagem. O que mais marca quem viaja é que podemos fazer melhor em nossa própria terra. No caso, fiquei mais convencido ainda do potencial do turismo para Cuiabá, Chapada e Pantanal. Unir cultura, paisagem e povo.

VICENTE VUOLO é economista e cientista político.

 

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