Não existe cabelo ruim!

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Carol Bispo

A palavra “ruim” carrega significados pejorativos que desclassificam o ser humano e provocam cicatrizes profundas na questão psicológica. Após me tornar especialista em cortes de cabelos cacheados e com o olhar de visagista, comecei a observar o comportamento das pessoas, em especial das mulheres, que têm dificuldade em assumir o cabelo natural.

Ao longo dos anos de atendimento ainda ouço a pergunta: “Tem alguma coisa que resolva esse cabelo ruim e grenho?” De forma bem serena, respondo com outra pergunta: “O que é cabelo ruim? O que ele te fez de mal?” Surge um breve silêncio ou um sorriso envergonhado e é quando passo a explicar que ela precisa é de conhecimento sobre como cuidar do cabelo cacheado, além de entender o que o cabelo significa na própria imagem.

O “cabelo ruim” foi imposto pela sociedade por meio do padrão de beleza do cabelo liso e muitas mulheres embarcaram nesse posicionamento. Hoje, esse conceito do “cabelo ruim” está sendo desconstruído e a transição para os cacheados naturais está sendo valorizada por muitas mulheres que entenderam que cada beleza é única.

Certa vez recebi no salão uma mãe que trouxe a filha de sete anos. A menina era super tímida e a mãe a humilhava o tempo todo, falando que o cabelo dela não tinha jeito, que era grenho e ruim. Meu coração ficou apertado, mas deixei a mãe descarregar todas as suas palavras e, depois elogiei o cabelo da criança, falei como ela era especial. Orientamos mãe e filha sobre os cuidados com o cabelo da menina.

De forma particular, contei para a mãe que hoje cuido de mulheres adultas, independentes e bem resolvidas financeiramente, mas que estão fragilizadas na alma por causa da sua beleza, por não ter tido o apoio dos pais na infância. Expliquei que durante o atendimento, quando falo do cabelo delas, muitas caem em um choro profundo porque lembram do passado, das palavras pejorativas que ouviram e que formaram estigmas na alma. Perguntei se era isso que ela desejava para a filha. A mãe me metralhou com os olhos, seu olhar ficou congelado e não falou nada. Mas eu não poderia ser omissa àquela situação, onde vi uma criança cheia de vergonha e medo, totalmente fragilizada. Já se passaram três anos e essa mãe nunca mais retornou ao salão. Mas tenho certeza que ali foi plantada uma semente e que algo mudou no comportamento da mãe.

Essa questão, que foi imposta pela sociedade, do cabelo ser bom ou ruim ainda continua bem viva. Mas o remédio para cura dessa situação está, primeiramente, no seio familiar.  Ele é o pilar que fortalece a autoestima da criança para, futuramente, ser uma adulta segura da sua imagem sobre o seu cabelo, sem feridas da infância. Com essa liberdade de julgamentos, podem falar o que quiserem que essas palavras não irão lhe afetar e sua autoestima estará sempre para cima.

(*) CAROL BISPO é visagista formada pela Philip Hallawell e hair designer da escola Internacional Pivot Point, além de designer de cachos Devacurl e graduanda em Psicologia. Instagram: @carolbispo_visagista

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